Documentário conecta passado e presente e discute reparação histórica em uma abordagem internacional
Um documentário de longa-metragem em fase de pré-produção, desenvolvido pela Universidade Federal Fluminense (UFF), vai investigar como a escravidão ainda influencia diretamente as desigualdades sociais, econômicas e políticas no Brasil contemporâneo. A proposta do filme é conectar passado e presente, trazendo à tona os impactos estruturais de um sistema que, mesmo após mais de um século do fim oficial, segue deixando marcas profundas na sociedade.
O projeto reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros e integra uma iniciativa internacional financiada pelo governo britânico, envolvendo instituições acadêmicas de diferentes países, como a University of Bristol, além de universidades em Gana e na Dominica. A produção também conta com a parceria do Cultne, organização brasileira voltada à preservação da memória audiovisual da cultura negra, ampliando o alcance e a diversidade de perspectivas na construção da narrativa.
À frente do roteiro e da produção no Brasil está a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, professora do Departamento de História da UFF. Segundo ela, o documentário nasce de uma pesquisa mais ampla sobre reparações históricas da escravidão em diferentes territórios, com o objetivo de entender como esses processos vêm sendo debatidos e construídos ao redor do mundo, especialmente em países diretamente impactados pelo sistema escravista atlântico.
No Brasil, o filme terá como eixo central a região da Pequena África, no Rio de Janeiro, com destaque para o Cais do Valongo, reconhecido como o maior porto de entrada de africanos escravizados nas Américas. Mais do que um marco histórico, o território é também um símbolo das lutas contemporâneas por memória, reconhecimento e justiça, reunindo movimentos sociais, pesquisadores e moradores que mantêm viva a discussão sobre o passado e suas consequências no presente.
A produção contará ainda com a participação do Instituto Pretos Novos, que atua na preservação da memória de africanos escravizados a partir de vestígios arqueológicos encontrados na região. A iniciativa reforça o compromisso do projeto em dialogar com instituições que atuam diretamente na construção e preservação da memória histórica da população negra no Brasil.
De acordo com Ynaê, o documentário parte de uma questão central e urgente: compreender como estruturas criadas durante a escravidão permanecem ativas na sociedade brasileira. A pesquisadora destaca que a desigualdade entre a população branca e a população negra ainda é profunda e que o debate sobre reparação vai além de um recorte específico, sendo uma discussão que envolve todo o país e suas bases sociais, econômicas e políticas.
Além do longa, o projeto prevê a produção de conteúdos audiovisuais curtos voltados à educação, alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às leis que determinam o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. A proposta é transformar o conhecimento produzido na universidade pública em linguagem acessível, utilizando o audiovisual como ferramenta de democratização e ampliação do debate.
O documentário brasileiro fará parte de uma série de produções realizadas em diferentes países, cada uma abordando a escravidão a partir de sua realidade local, mas em diálogo com um contexto global. A escolha de países como Brasil, Inglaterra, Gana e Dominica reflete as múltiplas dimensões do sistema escravista atlântico e suas consequências históricas, incluindo o reconhecimento de responsabilidades e os caminhos possíveis para a reparação.
Ainda sem título definido, o filme tem previsão de conclusão até o fim de 2027 e pode, inclusive, se desdobrar em uma série, diante da complexidade do tema. Mais do que revisitar o passado, a proposta é provocar o presente e ampliar um debate que segue atual, estrutural e indispensável para a compreensão do Brasil.
Fonte: Agência Brasil


















